A USP não sabe contar, mas e o Papa, sabe escrever?
A tecnologia servirá ao homem ou o homem servirá à tecnologia? A nova encíclica Magnifica Humanitas alerta para os riscos da Inteligência Artificial, da concentração de poder tecnológico e da construção de uma nova Torre de Babel digital. Mas será que o verdadeiro perigo está apenas nas Big Techs?
PhD Bertoncello
6/8/20264 min ler


Tivemos, na semana passada, três eventos relevantes: a Marcha para Jesus, a Parada LGBT em São Paulo e, em Madri, um evento com o Papa Leão XIV. No primeiro evento, os organizadores contaram 2 milhões de pessoas, e a USP apenas 33 mil. No segundo, os organizadores não divulgaram público oficial; foi o pior público da história, e a USP calculou 36 mil pessoas, número maior que o da Marcha. Parece piada. Já o evento de Madri, todos estimam um público superior a 1 milhão de pessoas e, como a USP não foi chamada, não existe nenhuma divergência absurda nos números.
Foi o primeiro evento desde a publicação da Encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, que apresenta sua reflexão sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial. Antes de analisarmos seu conteúdo, é importante compreender o que é uma encíclica e qual é a sua importância histórica, moral, cultural e social.
Sua origem está nos primeiros séculos do Cristianismo, nas Cartas Apostólicas, como Romanos, Coríntios, Efésios e Gálatas. Com o objetivo claro de dar unidade à Igreja e corrigir erros doutrinários, as primeiras encíclicas papais surgiram no século IV para manter a unidade da Igreja, combater heresias e exercer autoridade pastoral. Contudo, esse objetivo foi ampliado nas mãos do Papa Bento XIV, com a Ubi Primum (1740), e de Leão XIII, com a Rerum Novarum (1891). A partir desse momento, as encíclicas passaram a dialogar com toda a sociedade, católica ou não, posicionando-se sobre praticamente todos os grandes temas sociais, econômicos, políticos e culturais de sua época.
Vamos analisar dois aspectos de um dos textos mais profundos que li este ano: a Encíclica Magnifica Humanitas, do atual Papa Leão XIV. Destacarei o aspecto socioeconômico da tese desenvolvida pelo pontífice, que contrapõe a nova Torre de Babel, representada pelo orgulho, pela busca ilimitada de poder, pela tecnocracia e por outros problemas da modernidade, à Reconstrução de Jerusalém, associada à cooperação, à solidariedade e à responsabilidade compartilhada.
Ele apresenta a Inteligência Artificial (IA) como uma possível nova vilã da sociedade contemporânea, argumentando que ela pode se transformar em um instrumento de controle social e em uma das principais ferramentas para enfraquecer as relações humanas autênticas. Como resultado, poderíamos caminhar para um cenário marcado pelo controle sem transparência, sem auditorias e sem supervisão pública, correndo o risco de que o poder e a riqueza deixem de servir ao homem e passem a escravizá-lo, reproduzindo uma nova Torre de Babel.
Aqui está minha grande discordância com o Papa. Ele parte do princípio de que o Estado é bom e que as empresas são más. Eu acredito na máxima de julgar a árvore pelos frutos e pergunto: quais frutos os Estados e governos modernos trouxeram ao homem? Para não falar do atual governo brasileiro, marcado por corrupção e maus resultados, relembremos governos que não buscavam lucro, como as grandes empresas de IA, mas produziram frutos terríveis, como a Alemanha Nazista, a União Soviética e a China Revolucionária de Mao. Juntos, esses regimes produziram milhões de mortes diretas e associadas, além de muita miséria. Assim, Estados que concentram simultaneamente poder político, controle da informação, planejamento econômico e capacidade coercitiva podem ser extremamente nocivos aos princípios defendidos pela Magnifica Humanitas.
A Encíclica identifica corretamente vários riscos da concentração de poder tecnológico, mas dedica pouca atenção aos mecanismos econômicos que geraram esse poder e às consequências econômicas das soluções propostas. Em outras palavras, o diagnóstico é forte, mas a teoria econômica por trás é fraca. Em vez de propor mais regulamentação, deveria discutir a ausência de incentivos para reduzir a assimetria de informação. Dessa forma, valorizaria a criação de concorrência e reduziria o medo da tecnocracia regulatória. Afinal, o homem pode trocar de empresa, mas nunca pode trocar de Estado.
E, por fim, dedicou muito pouco espaço ao papel da inovação na redução da pobreza. Bastaria lembrar da Revolução Industrial e de como os avanços tecnológicos elevaram a produtividade, a renda e a qualidade de vida de bilhões de pessoas. Se a inovação reduz a pobreza, o endividamento público excessivo contrata pobreza futura para milhões de indivíduos, e esse tema não foi mencionado como um problema relevante, à solidariedade e à responsabilidade compartilhada. Isso também deixa dúvidas sobre a operacionalização do conceito de bem comum, que aparece como um dever das empresas, mas não como uma obrigação igualmente exigida do Estado.
Termino este artigo respondendo à pergunta que fiz no início. Primeiro, a USP não sabe contar, mas o Papa Leão XIV sabe, sim, escrever. A Encíclica Magnifica Humanitas é um texto denso sobre a alma humana e identifica corretamente os riscos morais e sociais da concentração de poder tecnológico. No entanto, oferece uma análise insuficiente dos incentivos econômicos, da função disciplinadora da concorrência e dos riscos da concentração de poder no Estado e nas instituições encarregadas de regular esse processo de aprimoramento humano.
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