A vontade de crer esta destruindo o Brasil

Quando a impunidade se torna regra, a única saída é a escolha moral

PhD Bertoncello

4/13/20263 min ler

Como uma visão do século XIX pode explicar a falta de conduta de quem burla o Bolsa Família ou usa o dinheiro do trabalhador, o FGTS, para ajudar bancos bilionários? Em 1896, William James escreveu um ensaio chamado “A Vontade de Crer” (The Will to Believe), que tive a felicidade de ler na LSE durante o meu PhD. Em sua genialidade e pragmatismo, ele estabelece que decisões devem ser avaliadas à luz de suas consequências práticas e que a escolha, ou a ausência dela, molda a experiência humana.

James colocava que o valor das decisões não está em uma verdade absoluta, mas nas consequências práticas que elas produzem na vida das pessoas. Assim, a análise de custo-benefício da sociedade, refletida em cada individualidade, gera o custo de oportunidade de fazer algo para mudar ou o risco de permanecer no status quo. O que pode acontecer de bom ou ruim se eu mudar, ou o que pode acontecer de bom ou ruim se eu não mudar?

Agora, vamos voltar ao Brasil do século XXI, onde 895 mil famílias receberam, em 2025, benefícios sociais de forma irregular e, ficando em casa, ganhavam mais do que um trabalhador formal. Ao mesmo tempo, temos trabalhadores formais extremamente endividados, a ponto de a inadimplência estar comprometendo o resultado dos bancos. Por isso, o Governo Lula propõe que o trabalhador utilize seu FGTS para pagar suas contas nos bancos.

Quais fatores levam determinadas famílias a descumprirem as regras e receberem recursos indevidamente? O que poderia incentivá-las a mudar de comportamento? Ademais, por que o governo, mesmo ciente do desvio de finalidade, não bloqueia imediatamente os pagamentos? A resposta pode ser compreendida à luz do conceito de custo de oportunidade. Ao optar pela moralidade, essas famílias enfrentariam a perda imediata de renda; ao manter o recebimento irregular, assumem o risco de sanções futuras. De forma semelhante, a escolha entre o trabalho formal, com pagamento imediato de impostos, e o trabalho informal, sem essa obrigação, reflete a avaliação racional dos incentivos econômicos disponíveis.

O Governo Lula, por sua vez, pode optar por ignorar as irregularidades e, assim, manter o apoio dos beneficiários, ou pode suspender os benefícios e enfrentar forte oposição em um ano eleitoral. Dessa forma, tanto nas avaliações do governo quanto das famílias, à luz de suas consequências práticas, tende a prevalecer o status quo: o governo finge não saber, enquanto as famílias fingem não poder agir de outra maneira.

O que está sendo colocado à prova, e que o governo busca alterar, é a inadimplência recorde dos trabalhadores brasileiros. A proposta de utilização do FGTS para a quitação de dívidas bancárias apresenta um dilema econômico relevante: o trabalhador pode optar por reduzir seu endividamento imediato, mas, em contrapartida, diminui sua proteção financeira em caso de demissão.

O governo pode incentivar essa prática e ajudar os bancos, ou liberar o FGTS para que o trabalhador tente melhorar sua situação financeira atual. O governo só renunciará aos recursos do FGTS se houver algum outro ganho, o que tende a ocorrer mais para os bancos do que para o trabalhador. Ao mesmo tempo, o trabalhador sabe que seu dinheiro, que está retido no FGTS, continuará disponível daqui a cinco anos, enquanto sua dívida não. Nesse contexto, é plausível que a legislação venha a ser aprovada; contudo, a adesão voluntária dos trabalhadores poderá ser limitada, a menos que existam incentivos adicionais ou mecanismos de indução à utilização do saldo.

O que se observa nesses dois exemplos é que, quando não há a expectativa de punição por comportamentos inadequados, o dilema moral associado à decisão de fazer ou não fazer determinada ação deixa de ser considerado. Nesse contexto, a análise passa a concentrar-se exclusivamente nas consequências práticas,positivas ou negativas, de agir ou de permanecer inerte.

A sociedade brasileira crê, de forma destrutiva, na ausência de punição, do presidente da República ao beneficiário do Bolsa Família, passando pelo banqueiro e chegando ao trabalhador formal. A confiança na impunidade corrompeu o Brasil; somos um exemplo de como destruir os pilares das decisões morais: do indivíduo, da organização social e das suas consequências. Somos cobaias de um experimento humano em escala que destruiu todos os pilares civilizatórios nacionais.

Como reconstruir esse cenário? Segundo William James, a crença religiosa satisfaz três critérios essenciais de uma “opção genuína”: ser viva, forçada e momentosa. Ele sustenta que esperar transformações institucionais sem uma prévia renovação moral dos indivíduos é ineficaz. As mudanças na busca pela verdade e pela ética tendem a manifestar-se de forma mais evidente na relação do indivíduo com o divino. Nesse sentido, a fé configura-se como uma escolha legítima e pragmática, capaz de produzir efeitos positivos na vida moral e existencial dos indivíduos e, consequentemente, de um país.