Brasil o país do Carnaval

Entre festa e responsabilidade, o Brasil escolhe sempre a distração. E o preço aparece na economia, nas empresas e no futuro.

PhD Bertoncello

2/16/20263 min ler

Naturalmente, você já ouviu afirmações como dizer que o Brasil é o país do carnaval, que tudo aqui acaba em samba e que o ano só começa depois do carnaval. Mas vamos pensar por um minuto nessas afirmações e por que, apesar de serem amplamente faladas, elas não correspondem à realidade e podem ser mais um fardo do que um fato no Brasil.

O carnaval, na sua essência, é uma festa de exageros. Os primeiros registros são das festas gregas e romanas, como as Dionisíacas e as Saturnais, que celebravam a fertilidade, a colheita e o culto ao prazer da vida. Com o avanço do cristianismo, o carnaval passou a ter data e nome, sempre antes da Quaresma, que é um período de reflexão e abstinência imposto pela Igreja, sendo nomeado de “carvis vale”, em tradução literal “retirar a carne”, mas, para nós, apenas Carnaval.

Assim, essa festa pagã de origem europeia se espalhou pela Europa e por todas as suas colônias americanas, incorporando músicas regionais e culturais. Vale lembrar que não existe carnaval na África e na Ásia e que o samba não é a música oficial: cada país tem suas tradições e músicas próprias. França, fanfarras; Alemanha, schlager; Itália, cortejos; Espanha, comparsas; México, mariachi; Bolívia, morenada; Colômbia, mapalé; Caribe, calypso; Estados Unidos, jazz; e, no Brasil, samba. Mas podemos afirmar que, no carnaval, nem tudo acaba em samba; talvez quase nada. O carnaval foi inundado por ritmos menos nobres, que lembram mais as festas dionisíacas e saturnais do que um ritmo cadenciado, simples e belo.

Nosso último senso comum, de que o ano só começa depois do carnaval, tem algumas verdades, como o Congresso Nacional, a preocupação coletiva com o futuro ou ainda os calendários de empresas e corporações, que estabelecem pontos de checagem das metas a partir de março para seus colaboradores.

Mas aqui o fato vira fardo: a baixa produtividade das empresas no início do ano faz do Brasil um ambiente hostil e de baixa lucratividade, retira o protagonismo da inovação e do planejamento e coloca o improviso e a “criatividade” como foco.

Resultado? Apesar de ser a 11ª economia do mundo e a 7ª em população, nenhuma empresa brasileira está entre as 100 maiores do mundo. As que estão entre as 500 maiores são, em sua maioria, empresas de commodities e bancos. Não temos nenhuma marca brasileira entre as 200 mais valiosas do mundo. Infelizmente, somos “criativos”, mas dentro de uma sociedade simplista e improvisada.

Talvez seja reflexo de uma população que, em sua maioria, aceita a doutrina de “pão e circo” e não se preocupa em construir patrimônio, usando como muleta algumas frases feitas, de conotação infantil ou de baixa cognição: “vamos aproveitar e depois a gente vê”; “poxa, é carnaval e ninguém é de ferro”; “o futuro a Deus pertence”; ou memes sem sentido, como “eu tenho sabor, sabor responsabilidade no carnaval”.

Quem agradece essa festa são os políticos brasileiros que, apesar de não estarem oficialmente trabalhando no Congresso, continuam atuando para que a amnésia coletiva se prolongue cada vez mais e se torne mais profunda, enquanto a arrecadação de impostos continua agindo fortemente para deixar empresas menos eficientes e a população mais pobre, mas sempre garantindo o “pão e circo”. Afinal, o Brasil já arrecadou mais de R$ 590 bilhões antes mesmo de chegar à Quarta-feira de Cinzas.

Em outras palavras, este artigo não condena o carnaval e não acredita que a culpa esteja na festa por si só, mas na incapacidade coletiva de compreender que o grande problema está na escolha, quase sempre equivocada, dentro da dicotomia entre religioso e profano, econômico e cultural ou responsabilidade e alienação. Não podemos ignorar as consequências dos atos presentes no futuro, seja no campo político, individual ou da nação.