Mentiras do show da Shakira e do Brasil
Enquanto o Brasil empobrece, o show continua: a conta chega — e ela não vem em aplausos, vem em perda de riqueza
PhD Bertoncello
5/4/20263 min ler


Duas notícias para serem pensadas pelos brasileiros e cariocas: o Fundo Monetário Internacional soltou um relatório dizendo dois fatos incômodos; o primeiro é que a renda per capita do brasileiro hoje é pior do que em 2013; o segundo é que a renda per capita PPP no Brasil, depois de 2014, descolou do mundo e, mesmo medida em PPP, o Brasil está empobrecendo lentamente todos os anos; ao mesmo tempo, o governo do Rio de Janeiro gastou R$ 20 milhões no show da Shakira e afirmou que esses gastos vão movimentar R$ 776,2 milhões na cidade; vamos, neste artigo, entender o que significa cada afirmação e descobrir o que está acontecendo com a economia, com o Rio de Janeiro e com o Brasil.
Primeiro, a renda per capita é um indicador que mede a média de renda por pessoa ao dividir o PIB pela população, sendo útil para comparar o nível médio de riqueza entre regiões, embora não revele a desigualdade na distribuição; já a renda per capita em Paridade do Poder de Compra (PPP) ajusta esse valor ao custo de vida de cada país, permitindo comparar o poder real de consumo, pois considera o que o dinheiro efetivamente compra em cada economia; assim, enquanto a renda per capita nominal indica a capacidade financeira e a posição econômica internacional, a renda per capita PPP reflete melhor o bem-estar interno da população, sendo fundamental usar ambos em conjunto para evitar interpretações distorcidas sobre desenvolvimento econômico.
O Brasil está preso na armadilha da renda média; é um conceito da Economia do Desenvolvimento que descreve a situação em que um país consegue sair da pobreza inicial e atingir um nível intermediário de renda, mas passa a enfrentar dificuldades para avançar para o grupo de países ricos, pois perde competitividade em mão de obra barata sem ter desenvolvido inovação, tecnologia e alta produtividade; em termos teóricos, está associada a limites estruturais de crescimento, nos quais a economia deixa de crescer por simples expansão de fatores e precisa evoluir em complexidade produtiva. Guardem estas palavras: complexidade produtiva!
No caso do Brasil, o Fundo Monetário Internacional e seus dados indicam que o país entrou nesse estágio ainda nos anos 1980, após o fim do ciclo de industrialização acelerada, e desde então permanece nessa condição por cerca de 40 anos, com crescimento baixo, perda de dinamismo industrial e dificuldade de convergir para níveis de renda das economias avançadas; por outro lado, mesmo em PPP, depois de 2014 ficamos atrás do mundo inteiro: antes estávamos empatados, agora estamos cerca de USD 3 mil dólares mais pobres do que a média global.
A complexidade produtiva cria o efeito multiplicador; na lógica da matriz de insumo-produto de Leontief, aplicada no Brasil pelo NEREUS, isso mostra quanto R$ 1 inicial se transforma na economia total: no Brasil, setores como indústria de transformação e infraestrutura apresentam multiplicadores entre 1,8 e 2,6, enquanto o agronegócio integrado fica entre 1,6 e 2,2, pois ativam cadeias completas; já os serviços giram em torno de 1,2 a 1,6, e o gasto do governo tende a ficar entre 0,8 e 1,0, sendo o menor impacto estrutural, pois mantém demanda, mas gera pouco encadeamento produtivo e aumento de impostos ou dívida.
Desta forma, os gastos da prefeitura do Rio, no valor de R$ 20 milhões no show da Shakira, nunca poderiam virar R$ 776 milhões, a não ser que toda forma de medir PIB e desenvolvimento econômico do mundo esteja errada; e o empobrecimento que está acontecendo com os brasileiros, mesmo em PPP, desde 2014, está ligado aos gastos públicos que são ineficientes e destroem riqueza no longo prazo.
Vou fechar o artigo deixando claro que o prefeito do Rio, a Shakira e os outros artistas que subiram no palco não me agradam, mas a discussão aqui é outra; precisa ficar claro que gastos estatais não produzem complexidade produtiva e, por esse motivo, não criam desenvolvimento econômico; essa visão atrasada está condenando o Brasil a ser eternamente uma promessa futura e nunca se tornar um país rico com qualidade de vida para os brasileiros.
Devemos levar a sério os gastos públicos e suas consequências no curto, médio e longo prazo, de forma que, ilustrativamente, posso afirmar que o Estado gasta como se fosse motor do crescimento, mas, na prática, muitas vezes atua como freio, pois R$ 1 em consumo público frequentemente retorna apenas R$ 0,80 a R$ 1,0; a população pode ter gostado, mas, no médio prazo, os cariocas ficarão mais pobres graças ao “Waka Waka”, e o Brasil? Ah, o Brasil: paramos de enriquecer graças à falta de infraestrutura e investimentos em inovação e, no longo prazo, seremos muito mais pobres que o mundo se o povo continuar dizendo “Estoy aquí” apenas no show.
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