Orbis multipolaris? Era só na retórica
Quando as tensões reais surgiram, o centro gravitacional voltou a se impor. O poder não é relativo. Ele tem eixo.
PhD Bertoncello
3/2/20263 min ler


Traduzindo do latim, Orbis multipolaris, ou mundo multipolar, foi uma narrativa iniciada nos anos 2000, que ganhou adeptos e estimulou teorias relevantes e conceitualmente sofisticadas. Representava uma visão pluralista do poder, fundada na relativização do centro hegemônico em diferentes dimensões, como o hard power e o soft power, e na busca de um equilíbrio não harmônico nem unitário, mas permanentemente disputado.
Para nós, brasileiros, o que mais simbolizou essa ideia foi o surgimento dos BRICS, criado em 2001 como expressão de uma possível redistribuição da arquitetura global de poder.Entretanto, em apenas quatorze meses, retornamos ao Orbis unipolaris, ou mundo unipolar, no qual se torna evidente a existência de uma hegemonia estrutural. O poder deixa de ser relativo, e o campo gravitacional da ordem internacional passa a girar de forma inequívoca em torno dos Estados Unidos. Vou explicar o porquê.
Vamos descrever quais seriam as forças multipolares existentes segundo a maioria das teorias. Os Estados Unidos, ex-poder hegemônico desde o fim da Guerra Fria, estariam perdendo poder em diversas áreas, restando como principais pilares o poderio militar e o dólar. A China aparece como economia ascendente, com ampla escala industrial, participação em grandes cadeias globais de suprimentos e volumosas reservas internacionais. A União Europeia apresenta um grande mercado consumidor sofisticado, moeda forte e capacidade regulatória global, os chamados globalistas. A Rússia, por sua vez, detém significativo poder militar, é uma das maiores fornecedoras de energia estratégica e possui um histórico geopolítico disruptivo. Por fim, o assim chamado “mundo islâmico” caracteriza-se por ser estrategicamente fornecedor de energia, possuir enormes fundos soberanos e apresentar posicionamento geográfico estratégico.
Naturalmente, em mundos multipolares teríamos múltiplos interesses não harmônicos que, ao encontrarem convergências temporárias, passam a justificar movimentos como os BRICS. A China é altamente dependente de alimentos e energia e conseguiu reunir no mesmo bloco grandes fornecedores de energia, como a Rússia, o Irã e a Arábia Saudita, além de um grande fornecedor de alimentos, como o Brasil, para atingir seus objetivos estratégicos.
Cabe lembrar que a Rússia e o Irã estão sancionados, em razão da guerra contra a Ucrânia e do programa nuclear, respectivamente, e por isso vendem petróleo para a China e para a Índia com desconto, o que pressiona as contas externas de ambos. Vale destacar também que o Brasil vende soja à China a preços inferiores aos praticados no mercado americano.
As ações militares dos Estados Unidos nos últimos meses, em particular no Irã, atingiram diretamente a China, afinal saíam de lá cerca de 1,5 milhão de barris de petróleo por dia, fluxo que foi interrompido neste fim de semana. Provavelmente teremos, nos próximos dias, um movimento de redução ou eliminação de descontos por parte da Rússia e, assim, cairá o segundo player do chamado mundo multipolar. O chamado mundo islâmico também ficou dividido, afinal países como Arábia Saudita, Jordânia, Síria e Catar apoiaram os ataques americanos.
O último jogador multipolar é a União Europeia, que se encontra em um grande dilema: ou volta a gravitar na órbita da visão americana, ou terá de assumir de forma mais autônoma sua defesa interna, diante da imigração islâmica, e externa, frente aos desejos geopolíticos disruptivos russos.
Em resumo, as teorias são realmente interessantes, mas o mundo real é impiedoso. Os Estados Unidos continuarão a exercer sua hegemonia por vários anos, afinal o poder econômico do dólar e o poder militar desproporcional em relação aos pretendentes ao poder deixam claro que o mundo multipolar era apenas retórica.
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