Por que tanta empresa grande quebrando?

380 anos de história empresarial jogados no lixo: incompetência privada ou destruição macroeconômica?

PhD Bertoncello

5/26/20263 min ler

Antes de responder a essa pergunta, vamos compreender a relação entre a quebradeira das empresas e o governo. A diferença entre microeconomia e macroeconomia ultrapassa a simples divisão acadêmica entre “o indivíduo” e “o todo”, pois ambas representam diferentes escalas de um mesmo organismo econômico. Na prática, a microeconomia é construída sobre milhões de decisões tomadas diariamente por empresas, consumidores, investidores e governos locais. A macroeconomia, por sua vez, parte de Brasília e tem como princípio a busca pela otimização dos recursos, pelo prolongamento dos ciclos econômicos positivos e pela redução dos negativos, melhorando, assim, as condições de emprego, inflação e crescimento econômico.

Agora vamos refletir sobre uma realidade: o que explica o fato de empresas de setores tão distintos, como Casas Bahia no varejo, Bombril no consumo doméstico, Coteminas na indústria têxtil, Polishop no varejo aspiracional, Tok&Stok no segmento de móveis, AgroGalaxy no agronegócio e Estrela no setor de brinquedos, estarem enfrentando dificuldades financeiras quase simultaneamente? Seriam apenas erros individuais de gestão ou estaríamos diante de um problema estrutural mais profundo da economia brasileira?

A falência ou a recuperação judicial de uma empresa raramente ocorre por um único fator isolado. Na maioria das vezes, ela é resultado da combinação entre fragilidades microeconômicas internas e pressões macroeconômicas externas que, ao longo do tempo, deterioram a capacidade da empresa de gerar caixa, honrar dívidas e manter sua competitividade no mercado. Mas será que todas essas empresas, que juntas somam aproximadamente 380 anos de história empresarial acumulada, sofreram simultaneamente de incapacidade gerencial, ou estariam sendo impactadas pelos efeitos de uma economia mais cara, marcada por altos impostos, juros recordes e demanda reprimida nos últimos anos?

Quando grandes empresas entram em falência ou recuperação judicial, os impactos ultrapassam a própria companhia e atingem trabalhadores, fornecedores, bancos, investidores e o consumo regional. O desemprego aumenta, o crédito torna-se mais restrito, a confiança econômica diminui e a arrecadação do governo é afetada. Em escala macroeconômica, sucessivas crises empresariais reduzem investimentos, produtividade e crescimento econômico, criando um ambiente ainda mais frágil para empresas, consumidores e para a própria capacidade de geração de riqueza do país.

Quando o ambiente macroeconômico deixa de estimular produtividade, segurança jurídica, educação de qualidade e igualdade competitiva, o resultado natural é a fragilização das empresas privadas produtivas. Contudo, sabemos que esse cenário não atinge todas as empresas da mesma forma, pois grupos próximos ao poder político continuam concentrando mercado, crédito, benefícios e riqueza, criando uma economia cada vez menos meritocrática, menos inovadora e estruturalmente menos próspera. Nesse contexto, deixo um alerta: setores estratégicos como o automobilístico, o supermercadista e o agronegócio tendem a se concentrar ainda mais nas chamadas “empresas amigas do rei”, ampliando a dependência econômica, reduzindo a concorrência e enfraquecendo o livre mercado.

A reconstrução da prosperidade econômica brasileira exige um ambiente baseado em produtividade, redução do custo de capital, segurança jurídica, simplificação tributária, educação de qualidade e estímulo à livre concorrência, permitindo que empresas eficientes cresçam pela geração real de valor. Em um ambiente assim, haveria transformações naturais no tecido econômico e social, com algumas empresas surgindo e outras encerrando suas atividades em razão da dinâmica competitiva do mercado, mas nunca o esgarçamento do tecido social em que praticamente todos perdem, enquanto apenas empresas com proximidade ao poder político continuam acumulando mercado, benefícios e riqueza.

Logo, respondendo às perguntas levantadas ao longo do texto, o problema nasce na macroeconomia e nos direcionamentos econômicos do governo Lula. A solução para o cenário atual é, sobretudo, política e passa pela construção de instituições mais isonômicas, transparentes e menos intervencionistas, onde o Estado deixe de favorecer grupos específicos e passe a garantir regras estáveis, igualdade competitiva e liberdade econômica para toda a sociedade.

Eu sei que isso parece uma utopia, mas, para não terminarmos sem resposta, vamos à origem grega da palavra utopia: οὐ (“não”) e τόπος (“lugar”). Assim, ou-topos significa literalmente “não lugar”. Portanto, que fique claro: o problema não é o Brasil, mas a normalização de governos que não possuem o Brasil como projeto de nação, que não se importam com grandes empresas, ou qualquer empresa quebrando, desde que a implantação de determinadas ideologias políticas avance e se construa uma sociedade cada vez mais dependente, fragilizada e fácil de ser controlada.

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