Qual o preço da mentira e do crime?

Entre colunas sagradas e promessas profanas, Dolos sorri quando a mentira veste terno e busca absolvição na aparência.

4/20/20263 min ler

Vamos definir o que é, e quanto custa, cada substantivo. A mentira é a afirmação consciente de algo falso com a intenção de enganar, ocultar a verdade ou induzir outra pessoa ao erro. Ela normalmente depende de três elementos: saber que a informação não corresponde aos fatos, como diria Cazuza, comunicar essa falsidade e buscar algum efeito sobre quem escuta. Em termos simples, mentira não é apenas estar errado; mentira é dizer aquilo que se sabe ser falso.

Crime, por sua vez, é a conduta humana proibida por lei penal, praticada por ação ou omissão, que viola um bem jurídico protegido pelo Estado e está sujeita à punição. Em termos simples, crime é um comportamento considerado suficientemente grave pela sociedade a ponto de merecer sanção penal, como prisão, multa ou outras penas previstas em lei. Na visão jurídica moderna, excluindo interpretações distorcidas que por vezes contaminam o debate público, o crime normalmente envolve três elementos centrais: fato típico (quando a conduta se enquadra na lei), ilicitude (quando é contrária ao direito) e culpabilidade (quando há responsabilidade do autor). Ou seja, nem todo erro moral é crime; crime é aquilo que a lei define como tal.

A mentira de políticos, que na minha visão está intimamente ligada à corrupção, também pode ser mensurada. À luz dos Princípios de Viena para Mensuração da Corrupção, desenvolvidos no âmbito de organismos internacionais para aprimorar a mensuração empírica do fenômeno corruptivo, estimativas que incorporam custos diretos, ineficiências alocativas e perdas macroeconômicas permitem sustentar que a corrupção no Brasil possa gerar prejuízos anuais na ordem de R$ 300 bilhões a R$ 380 bilhões, comprometendo a produtividade sistêmica, a confiança institucional e o potencial de crescimento de longo prazo (UNODC; OCDE, 2024).

Por outro lado, o crime também custa caro, pois os crimes contra a pessoa, como homicídios, agressões e sequestros, reduzem o capital humano nacional ao eliminar trabalhadores e jovens em idade produtiva, interromper trajetórias educacionais, comprometer a renda futura das famílias e gerar impactos psicológicos que afetam a produtividade, a saúde mental e a coesão social. Ao mesmo tempo, os crimes contra o patrimônio, como furtos, roubos, extorsões e estelionatos, funcionam como um imposto informal sobre famílias e empresas, já que recursos que poderiam financiar expansão produtiva passam a ser direcionados para grades, vigilância privada, seguros elevados e sistemas de proteção, reduzindo a eficiência econômica e a taxa potencial de crescimento.

Em estimativas conservadoras amplamente citadas no debate público, a violência pode custar ao Brasil algo próximo de 6% do PIB, valor presente em estudos divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e repercutidos em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o que equivaleria a cerca de R$ 762 bilhões anuais. Já estimativas mais amplas, que incorporam externalidades mais profundas e impactos indiretos, alcançam números próximos de 11% do PIB, o que ultrapassaria R$ 1,4 trilhão por ano.

Em resumo, a mentira e o crime no Brasil custam entre R$ 1,062 trilhão e R$ 1,780 trilhão por ano, e aí fica fácil compreender como um país tão rico pode permanecer subdesenvolvido e conviver com pessoas tão pobres. A resposta, em grande medida, está no fato de que a sociedade brasileira ainda tolera figuras semelhantes a Dolos, personagem da mitologia grega que simbolizava a trapaça, o engano, o ardil e a mentira estratégica. Dolos representava o indivíduo que manipula aparências para obter vantagem, exatamente o tipo de comportamento que corrói instituições, destrói confiança e condena nações inteiras ao atraso.

Reflita por um minuto: quantos “Dolos” você conhece? Eles estão espalhados por toda parte; no mercado financeiro, vendendo ilusões; na segurança pública, protegendo interesses em vez de cidadãos; ensinando seus filhos, transmitindo valores distorcidos; na burocracia estatal, atrasando quem produz e favorecendo quem manipula; e em políticos que vão à igreja a cada quatro anos apenas para parecer mais próximos daqueles que roubam todos os dias. Dolos não vive apenas nos mitos antigos, ele se manifesta sempre que a aparência vale mais do que a verdade e o oportunismo vence o mérito.

O crime só vai reduzir quando formos impiedosos no rigor da lei, e a mentira só terminará quando a população se comunicar de forma descentralizada e distribuída, podendo enxergar com clareza as faces da falsidade de inúmeros “Dolos” espalhados pelo Brasil. Somente quando a impunidade perder espaço e a verdade circular sem intermediários é que sobrará dinheiro para aquilo que realmente importa: qualidade de vida, prosperidade e oportunidades reais de mobilidade social.