Viver no interior ou na cidade grande?

Artigo 5º no papel, opressão na prática: quando o Estado age como traficantes e milicianos, a liberdade morre dentro da sua própria casa.

4/28/20263 min ler

Muita gente, no passado, saiu do interior para as capitais. Esse movimento fez o Brasil se industrializar nos anos 60 e 70 e, assim, repetiu-se o processo de industrialização que já havia acontecido nos países desenvolvidos. Por esse motivo, o Brasil também enriqueceu, com uma interdependência econômica sadia e natural, proporcionando o desenvolvimento das grandes cidades e a modernização do interior. Deixando claro que a autossuficiência total é mito; dependência total é fraqueza. A inteligência econômica está em transformar dependência em interdependência favorável.

Do ponto de vista social, é comum dizer que a qualidade de vida no interior é melhor, mas a renda é menor, afinal existem menos oportunidades em cidades menores. Porém, meu objetivo é sempre aprofundar a discussão e, por isso, vamos pegar três exemplos: riqueza, qualidade de vida e direitos constitucionais, para compreender até que ponto esses conceitos são verdades ou mitos urbanos.

Assim, dividimos as capitais de cada estado e as cidades com mais de 1 milhão de habitantes de um lado, e o resto do Brasil “caipira” do outro. No grupo A, das capitais, temos 96 milhões de brasileiros, e no interior, o que vamos chamar de grupo B, 117 milhões.

As capitais têm uma renda média de R$ 65 mil por ano, com um GINI de 0,575, enquanto o interior tem renda de R$ 39 mil, com desigualdade menor, de 0,4850. O índice GINI mede a concentração de renda, em que 1 representa concentração total e 0 representa igualdade total. Assim, todos os lugares que estão abaixo de 0,5 seriam melhores do que aqueles que estão acima de 0,5.

Outro ponto importante é o IDHM, que mede a qualidade de vida. O grupo A é melhor, com 0,765, enquanto o interior tem 0,72. Aqui, os apaixonados vão se digladiar: quem defende as grandes cidades vai comemorar; aqueles que defendem o interior vão pedir para tirar as cidades pobres do Norte e Nordeste para passarem à frente na qualidade de vida. Mas lembro que toda a análise partiu de um recorte que deve ser respeitado.

Mas onde está a riqueza do interior? A pujança econômica dos caipiras se reflete na Agrishow, onde a simbiose entre capitais e interior fica evidente: IAs que saíram de startups dos grandes centros cuidando do controle de pragas no campo, e o suor na terra oferecendo alimentos de qualidade às cidades, que têm pessoas que ainda pensam que leite sai da caixinha e não de uma vaca.

Isso reforça que autossuficiência não existe e que a interdependência econômica aumenta a complexidade econômica e produz riqueza para todos. Podemos afirmar, afinal, que cidade grande e interior estão ficando muito parecidos, para o bem ou para o mal.

Esta semana, a insegurança jurídica tomou conta do interior. A Polícia Federal intimidou moradores de Andradina e Presidente Prudente, invadindo suas casas e exigindo a retirada de faixas contra a visita do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Aqui no interior, o artigo 5º, que garante a liberdade de expressão e a inviolabilidade do domicílio, deixou de existir, da mesma forma que acontece em uma favela nas grandes cidades, onde o tráfico e os milicianos comandam.

Por esse motivo, viver no interior ou em grandes cidades no Brasil está cada vez mais parecido. Coisas ruins estão acontecendo por toda parte. A interligação que garante o progresso e a melhoria da qualidade de vida torna-se cada vez mais frágil, e o direito do indivíduo, sendo ele caipira ou não, está ameaçado, seja no check-in do hotel, na faixa dentro da sua casa ou nas redes sociais.

O Brasil pode enriquecer e melhorar a vida de todos os brasileiros, desde que não se esqueça de que a liberdade é o ativo inegociável, como disse um caipira na Inconfidência Mineira.