Zan, Zendegi, Azadi “Mulher, Vida, Liberdade”
Do Império Persa à repressão islâmica: quando o Irã trocou tolerância por medo
PhD Bertoncello
1/12/20263 min ler


Este slogan Zan, Zendegi, Azadi, em tradução livre “Mulher, Vida, Liberdade”, vem sendo gritado no Irã há cerca de 15 dias, mas, talvez, venha sendo sentido pela população há 46 anos, desde 1979. Antes de falar propriamente sobre os protestos, é necessário, de forma pontual, revisitar a história e observar o Irã atual, para que possamos compreender o significado e a profundidade dessas manifestações.
Existem traços de civilização humana na região desde cerca de 100.000 a.C., mas a unificação do reino persa ocorreu com Ciro, o Grande, em 550 a.C.. Foi Ciro, inclusive, quem libertou os judeus do cativeiro babilônico e cujo império ficou conhecido pela tolerância religiosa e cultural. Os persas tinham como religião oficial o zoroastrismo, baseado em uma luta cósmica entre o bem (Asha/Ahura Mazda) e o mal (Angra Mainyu, ou Ahriman), caracterizando-se pelo dualismo cósmico, pelo livre-arbítrio e por conceitos como céu, inferno e juízo final.
Houve a conquista muçulmana da Pérsia a partir de 651 d.C., sob o Califado Rashidun. Os persas, historicamente tolerantes, tornaram-se gradativamente muçulmanos, sem abandonar sua sofisticação cultural. Ainda assim, permaneceram entre os povos mais desenvolvidos do Oriente Médio do ponto de vista filosófico, cultural e econômico. Contudo, com a Revolução Islâmica de 1979, ocorre uma ruptura civilizacional: a família Pahlavi é expulsa do poder e o aiatolá Ruhollah Khomeini consolida um regime teocrático baseado na opressão sistemática das mulheres iranianas. Sob a justificativa da Sharia, o novo Estado proibiu vestimentas consideradas ocidentais, reduziu a idade mínima para o casamento para nove anos e institucionalizou a submissão legal da mulher ao homem. Esse arranjo não foi acidental: ao garantir privilégios jurídicos e simbólicos aos homens, o regime obteve apoio social suficiente para instaurar uma ditadura que já dura 46 anos.
Mas toda ditadura cai, invariavelmente, pela economia. Em 2025, o crescimento do PIB iraniano foi de apenas 0,3%, enquanto a inflação atingiu 48% ao ano, com a inflação de alimentos superando 70%. O desemprego, pela primeira vez desde a Revolução Islâmica, ultrapassou 9%, e entre os jovens já excede 20%, lembrando que as mulheres sequer entram plenamente nesse cálculo, afinal, para o regime, continuam juridicamente tratadas como propriedade dos homens. Para completar o quadro, a moeda local, que, por curiosidade histórica, também se chama Real (Rial; IRR), desvalorizou cerca de 70% apenas em 2025, empurrando o país para um colapso financeiro aberto.
Com uma população de aproximadamente 90 milhões de habitantes, o Irã apresenta um crescimento populacional muito baixo para os padrões de países muçulmanos, cerca de 0,9% ao ano. Para efeito de comparação, a população do Iraque cresce 2,1%, a do Afeganistão 3%, a da Nigéria 2,5% e a do Paquistão 1,8%. Para mim, existem apenas duas explicações plausíveis: ou o homem iraniano não possui condições econômicas de sustentar sua família e, por isso, deixa de ter filhos, ou a mulher iraniana vem, silenciosamente, conquistando sua emancipação dentro dos lares, longe dos olhos do Estado e à revelia do regime.
Mas, nas ruas e nos protestos, não existem bons números. A agência Reuters aponta 538 mortos e mais de 10 mil presos, em sua maioria mulheres, que continuam gritando das ruas “Zan, Zendegi, Azadi”, Mulher, Vida, Liberdade.
Confesso que, entre todos os artigos que escrevi, este é aquele que mais me incomodou.
A sociedade iraniana, que se orgulha do passado persa, de homens guerreiros que libertaram os judeus, que tinham como base a tolerância cultural, que contribuíram para a humanidade na medicina, com O Cânone da Medicina, no desenvolvimento da álgebra e da lógica aristotélica, em pensamentos filosóficos que influenciaram Tomás de Aquino, e até mesmo no cinema iraniano contemporâneo, hoje se mostra medrosa. Vai às ruas motivada por uma condição econômica melhor, mas coloca suas mulheres na linha de frente para morrer, gritando.
Zan, Zendegi, Azadi” ou Mulher, Vida, Liberdade!
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